Sexualidade e autismo adulto

Barbara Moreno conversando sobre autismo adulto e sexualidade
Bom, como é possível encontrar em outras páginas desse site, me chamo Barbara Moreno de Araújo, gosto de usar só Barbara Moreno, quando posso… Sou Psicóloga e Analista do Comportamento. Trabalho com pessoas autistas com e sem deficiência intelectual e de linguagem, desde 2014, e com pessoas autistas adultas desde 2017.

No início do trabalho com adultos, posso dizer que me sentia “solitária”. Sou do interior, é uma variável agravante que faz bastante diferença. Em dado momento me deparei com a urgência de encontrar materiais auxiliares para educação sexual e relacional de um dos meus clientes adultos, na época, não encontrei… Elaborei para ele, o que chamei de cartilha, contendo informações conceituais e sociais sobre paquera/flerte, partes dos corpos dos sexos masculino e feminino, alterações físicas com excitação, masturbação a sós e acompanhado, higiene íntima… E de forma surpreendente, deu certo, meu empenho na produção e planejamento de estratégias de ensino funcionaram, foi extremamente reforçador! Me vi fazendo alguma diferença, me vi podendo e conseguindo ajudar uma pessoa. Depois disso continuamos trabalhando e desenvolvendo habilidades mais refinadas, envolvendo as relações afetivo sexuais, junto das habilidades e competências socias.


Ao passar dos anos, fui adaptando esse material que elaborei em 2018/2019, para as demandas individuais dos meus clientes e situações vivenciadas que iam surgindo. Este material me auxiliou diretamente em diferentes casos, alguns desses me cobraram conhecimentos específicos, me levando a reflexão cada vez maior do porquê era tão difícil encontrar o que for que precisasse dentro desta temática: sexualidade e autismo?!?!


Me recordo de uma outra situação, que foi também uma variável que influenciou na minha decisão de pesquisar sobre este assunto no mestrado, onde um adulto autista, nível de suporte 1, com ótimas habilidades funcionais e independentes, estudante de ensino superior, feriu seu genital em sua primeira tentativa de relação sexual, isso porquê ao que tudo indica, não sentiu que estava sem lubrificação (“seco”) e não percebeu que a vermelhidão, dor e ardência eram indicativos de que algo estava errado, ele não sabia que sensações esperar…


Se eu não sei o que esperar, como sei que há algo errado? Essa situação, foi como um motor para o meu interesse. Presenciar e conviver com pessoas extremamente competentes em algumas áreas, mas com dificuldades básicas que podem gerar consequências perigosas, físicas e psicológicas, somada a dificuldade de encontrar materiais de ensino adequados à idade, foi muito do que motivou o desenvolvimento do meu estudo e de tudo isso… Pensar num material que pudesse antecipar esses e outros problemas, dar modelo de formas de manipulação genital segura, ensinar nomes básicos (ex.: lubrificação, “tesão”, excitado, clitóris)… E ainda, contribuir com colegas profissionais que estivessem passando pelo que eu passei… pensar em tudo isso fez parte da minha escolha de tema de pesquisa e o debruçar sobre isso.


Decidir buscar uma ilustradora que fosse também uma pessoa com TEA, foi outro cuidado que eu fiz questão de ter. A convivência com pessoas – não só – autistas – neurodivergentes – permeia minha vida em diferentes âmbitos numa alta porcentagem… ouvir o que elas têm a dizer em sua diversidade e fazer o máximo que posso para acatá-los, enquanto profissional e aliada, é um dos meus valores. Isso inclui, pra mim, reconhecer a importância da validação das pessoas autistas adultas enquanto profissionais e valorização (inclusive financeira) de seus pontos fortes. E foi nessa busca que encontrei uma pessoa incrível. Uma mulher, psicóloga, com TEA, TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), AH/SD (altas habilidades/superdotação) e, foi um presente! Fez desse trabalho mais afetuoso, respeitoso e com representatividade. Ela entendeu minhas ideias e colocou sua perspectiva, o resultado é a História em quadrinhos que num plano ideal, é apenas o primeiro volume.

Um dia quem sabe, produziremos outras versões, com diferentes relações, diferentes corpos e situações…

Sexualidade é uma área do desenvolvimento humano que perpassa por vivências, conhecimentos, autoconhecimento, aprendizagens, sensações, emoções, desejos, afetos, saúde, questões ambientais, culturais, biológicas, físicas, planejamento familiar, segurança… Ela está presente em todos nós, humanos, estejamos conversando ou não sobre esse assunto. Mas é vivenciada de maneiras diferentes por cada pessoa e muitas coisas, dependem de ensino e orientação.

A Organização Mundial de Saúde – OMS, define que para alcançar e manter a saúde sexual, é importante que sejam garantidas possibilidades de experienciar relações “agradáveis e seguras, livres de coerção, discriminação e violência”. Portanto, “os direitos sexuais de todas as pessoas devem ser respeitados, protegidos e cumpridos.”.* Informação e conhecimento fazem parte desses direitos, e ao realçar uma parcela da população de pessoas com mais de 18 anos dentro do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), e relacioná-la com esta temática, encontra-se um panorama que sinaliza a necessidade de produções científicas e tecnológicas para garantir o ensino necessário. Diferentes estudos reiteram a necessidade do desenvolvimento de pesquisas de base e tecnologias de ensino específicas para esta população.


Adultos e jovens com TEA, assim como todo tipo de diversidade presente na natureza do indivíduo, estão sujeitos a interesses, vontades e desejos afetivos sexuais como parte inerente ao seu desenvolvimento. Promover ensino e conhecimento acerca da sexualidade para as pessoas autistas, pode dentre outras consequências positivas, diminuir a probabilidade da vitimização sexual nesta população, pois a partir do momento que eu aprendo “o que é” eu também aprendo que posso colocar limites, aprendo quando algo está errado… Contribuir com o aumento do conhecimento de hábitos e comportamentos sexuais saudáveis, colabora com a preservação do direito legal ao desenvolvimento da sexualidade saudável para pessoas com TEA.


O autismo na vida adulta tem suas dificuldades específicas, que podem ou não interferir em uma sexualidade saudável, relacionadas com questões de: sensibilidade sensorial, habilidades sociais, conhecimento da sexualidade, funções executivas, inflexibilidade cognitiva e comportamental… Por isso profissionais que atuam em intervenções que visam sempre a longo prazo, melhora da qualidade de vida das pessoas que estão no espectro autista, têm o dever de saber minimamente direcioná-los para buscar informações acerca do desenvolvimento da sexualidade, masturbação e auto prazer, encontros românticos, prevenção de vitimização, higiene íntima etc.


É reconhecido que uma pessoa ser autista nada tem a ver com um não desenvolvimento sexual. Em meio a tantos mitos, tabus e preconceitos, negligência de suporte e ensino, violação dos direitos sexuais e reprodutivos, desvalidação da sexualidade ou dessexualização, potencialização da exclusão social… Profissionais persistentes lutam, estudam e atuam para desfazer esses tabus… É importante buscar aprimoramento, para distanciar-se de antigos padrões que consequentemente, limitam as pessoas autistas de terem acesso à informação e conhecimento sobre a sexualidade saudável, de maneiras que possam aprender.


Na fase adulta é esperado que ela possa escolher suas práticas, manifestações e condições da sua sexualidade, com suporte e ensino necessários, esse desenvolvimento pode acontecer de maneira saudável. Oferecer educação acerca das sexualidades é de extrema importância, não apenas para que saibam tomar atitudes de saúde como, prevenção de infecções, gravidez, cuidados de higiene, e se proteger de perigos, mas também para que possam conhecer e desfrutar de relações prazerosas, acompanhados ou não.


Meu objetivo, com a disponibilização destes materiais, de forma gratuita, é contribuir para a prática clínica e o trabalho do terapeuta, para que pessoas autistas que necessitam de orientações em relação ao desenvolvimento de sua sexualidade saudável sejam mais bem amparadas do que vieram sendo nas décadas passadas (a partir de estudos anteriores e experiências).


Ressaltando que informar, não é sinônimo de incentivar a prática, mas é sinônimo de não descartar as necessidades sexuais de uma pessoa baseado em sua deficiência.

O tema da sexualidade está em toda parte e, nem por isso, falar sobre ele é algo fácil, pois reflete toda nossa história de vida. E sem o preparo e instrumentos adequados esses desdobramentos se tornam obstáculos ao acesso à informação de qualidade sobre esta temática. Não estranhamente poderíamos inferir que há relação com a escassa literatura sobre sexualidade e deficiências que abordam a questão do prazer como uma pauta, pelo contrário, os estudos com enfoque medicalizante são maioria*. Pessoas autistas precisam ser reconhecidas enquanto seres sexuais, que necessitam, assim como todas as pessoas, de uma educação sexual que acompanhe o seu desenvolvimento, para que possam escolher se querem e saber como, expressar sua sexualidade e saibam garantir sua saúde sexual.

Nós, profissionais que trabalham com jovens e adultos autistas (aqui, faço um recorte para a adolescência também), devemos nos lembrar do dever de levar informação também acerca da área da sexualidade. É importante deixarmos nossas crenças religiosas, culturais, sociais, separadas de nossas competências profissionais. Se por esses ou outros motivos um profissional não se sentir capaz, – e aqui, ressalto um dever: reconhecer nosso escopo de capacidade/competência – deverá ser substituído ou encaminhar o caso para alguém que consiga ser objetivo e ético neste quesito. Pois não faltam argumentações* e afirmações sobre o direito de acesso e ensino sobre a sexualidade para as pessoas autistas.
Os instrumentos produzidos para a minha pesquisa de mestrado, estão aqui disponibilizados, de forma gratuita, a fim de auxiliar os profissionais em grande escala, facilitando que se sintam à vontade e confiantes em falar sobre o tema, com ferramentas que possibilitem a comunicação direta e objetiva sobre o assunto, de forma apropriada para a idade e que ajudem a identificar áreas específicas de dificuldades que precisam de atenção.

Já a H.Q. (HISTÓRIA EM QUADRINHOS) – 9 páginas – usada num contexto clínico, pode ser lida pouco a pouco, e intercalada com outras estratégias de ensino. Se for impressa, ela pode ser levada para casa e podem ser trabalhados relatos sobre sensações, questões sensoriais, dificuldades, dúvidas e garantias de segurança e higiene. Acredita-se que esse acompanhamento próximo, junto ao material, será de extrema eficácia para a melhoria do desenvolvimento da sexualidade saudável de jovens adultos autistas. O formato em H.Q., com similaridades às narrativas sociais, teve como base os dados de evidência científica dessa ferramenta para ensino e intervenção em diferentes áreas com pessoas com TEA – de forma simples, narrativas sociais, são histórias ilustradas, diretas, com linguagem objetiva, escritas na primeira pessoa do singular, que expõe situações do cotidiano e comportamentos possíveis para essas situações. A ilustradora desta H.Q. é uma mulher cis, psicóloga, autista e de extremo talento. Essa foi também uma decisão pautada em vivências profissionais, da necessidade de incluir pessoas com autismo nos espaços de pesquisa sobre melhores práticas de intervenção. Este material pode ser mais indicado e útil para pessoas nível de suporte 1 e com bom desenvolvimento intelectual. Para orientações desta mesma temática, com outros contextos, níveis de suporte etc., agrupamos algumas ideias de materiais aqui: (downloads) Novamente, ressaltando que informar, não é sinônimo de incentivar a prática, mas é sinônimo de não descartar as necessidades sexuais de uma pessoa baseado em sua deficiência. (H.Q.: é uma narrativa social, no formato de história em quadrinhos, com instruções detalhadas, descrições diretas e imagens ilustrativas.)

O QUESTIONÁRIO DE CONHECIMENTOS DA SEXUALIDADE E MASTURBAÇÃO poderá ser usado para realizar rastreio/linha de base de necessidades especificas de ensino, através de dúvidas, respostas incorretas e dados de dificuldades. Ele poderá “mostrar o norte” para o profissional. Para a resposta, garantir um ambiente que ela tenha privacidade e sinta-se à vontade… Não é necessário que seja respondido todo de uma vez, pode ser respondido por partes, sendo que ele é dividido entre: (1) conhecimentos básicos da sexualidade e masturbação, (2) conhecimentos básicos da sexualidade e masturbação envolvendo outras pessoas, (3) satisfação com a sexualidade e masturbação e (4) dificuldades com a sexualidade e masturbação.

Para conhecer e baixar a nossa HQ

Preencha o formulário abaixo e enviaremos direto para o seu email!

HQ Sexualidade TEAjudo


Gostou e se interessou ?

Aperte o botão e tenha acesso a mais conteúdos e materiais sobre sexualidade

Rolar para cima