Postamos alguns vídeos, recortes de uma capacitação para equipe que falamos sobre Ensino Naturalístico(NI) e um tipo de estratégia de ensino estruturado que se chama Treino por Tentativas Discretas (DTT), tais vídeos geraram muitas dúvidas, comentários e reflexões sobre como deve ser a terapia ABA. O que me levou a escrever sobre esse tema para estrear nosso espaço do blog.
O primeiro erro dessa conversa é reduzir ABA apenas a essas duas estratégias de ensino. Se você não sabia até agora que existem não duas, mas quase 30 práticas baseadas em evidência, muitas delas derivadas dos princípios da ABA, fique nesse texto até o final!
Quando alguém diz “ABA é DTT”, está reduzindo a amplitude da ciência a uma técnica específica. É como dizer que a medicina é “dar antibióticos” ou que a engenharia é “usar concreto”. Análise do Comportamento Aplicada é uma ciência muito completa (isso é tema pra outra conversa), e no campo do Transtorno do Espectro Autista ela é embasada por observar, analisar e formular hipóteses e não é um pacote de técnicas fixas aplicadas de maneira igual para todos os autistas do mundo.
O relatório do NCAEP (Steinbrenner et al., 2020) lista 28 práticas focadas de intervenção que têm evidência de eficácia para pessoas com autismo de 0 a 22 anos. (ESSA LISTA ESTÁ PRA SER ATUALIZADA, FIQUEM ATENTOS!) muitas das quais derivam da ABA — como Treino de Comunicação Funcional, Reforçamento Diferencial, Suportes Visuais e outros.
Essas práticas cobrem um espectro amplo de contextos, idades e objetivos.
Reduzir ABA a apenas duas práticas (DTT e NI) ignora a pluralidade de procedimentos que compõem a base empírica da área.
Mas quanto à discussão entre DTT e NI (estruturada ou naturalista?), vamos lá, ambas derivam da mesma base teórica: reforço, controle de estímulos, modelagem e análise funcional.
A diferença está no nível de estrutura e no contexto de aplicação:
- DTT é estruturado, controlado, útil para ensino inicial de habilidades novas, proporciona uma economia de ensino para o aprendiz e o aplicador.
- NI é contextualizada, útil para generalização, engajamento e espontaneidade.
Seguem algumas indicações de pesquisas brasileiras com aplicação destas duas estratégias:
- Ensino de aplicação de tentativas discretas a cuidadores de crianças diagnosticadas com autismo — Luciene Afonso Ferreira, Álvaro Júnior Melo e Silva & Romariz da Silva Barros.
Estudo que verificou o efeito de treino para cuidadores realizarem DTT com crianças com TEA. Os cuidadores foram avaliados antes, durante o treino e depois, apresentou melhora até atingir 100% de acertos segundo protocolo. Link para acessar:
https://www.revistaperspectivas.org/perspectivas/article/view/173?utm_source=chatgpt.com
- Análise de intervenções naturalistas baseadas na rotina da família para jovens com deficiência intelectual e/ou autismo — Giovanna Lins, Priscila Benítez, Gessica Fonseca & Kate Mamhy Oliveira Kumada.
Estudo de revisão, que busca intervenções naturalistas centradas na rotina familiar, particularmente para jovens com autismo ou deficiência intelectual. Observou que há muitos estudos em primeira infância, mas poucos para a juventude. Link para acessar:
https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/87672?utm_source=chatgpt.com
Para encerrar nossa conversa, a resposta é NÃO, não devemos usar só estratégias naturalistas na terapia ABA, isso vai depender de cada aluno, paciente, aprendiz. O comportamento humano é sensível ao contexto social, cultural e emocional, o profissional precisa ser sensível e flexível, e claro se atentar e se pautar no que tem de mais atualizado nas pesquisas da área de ABA ao autismo.
Espero que vocês tenham gostado dessa primeira conversa.
Esse espaço é para trazermos diferentes assuntos, com indicações, reflexões, comentários científicos ou pessoais.
O que vocês querem ver por aqui??
Um beijo!
Isabela Maria.
Para acessar o documento de Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism” da equipe da UNC-Frank Porter Graham (Steinbrenner, Hume, Odom etc.) traduzido:
Isabela Maria
Psicóloga Especialista em ABA
Co-fundadora da TEAjudo