
Uso de RPG no treino de Habilidade social
A gamificação na psicoterapia é uma ferramenta extremamente interessante e pode ser utilizada com qualquer público-alvo. Deve-se salientar que, neste texto, tratarei apenas do RPG (role-playing game); entretanto, a gamificação pode ser compreendida como a inserção de elementos de jogos no contexto terapêutico. O desenvolvimento de conceitos de videogame dentro da terapia é a marca da gamificação: objetivos, pontos, desafios e recompensas, característicos dos jogos, são aplicados no setting terapêutico. Além disso, o videogame pode ser utilizado para treinar memória, colaboração entre pares, coordenação motora fina, atenção, entre outras habilidades.
Quando pensamos em RPG, é crucial considerar sua estrutura ao inseri-lo na terapia. Para explicar o jogo e de que maneira ele se encaixa no processo terapêutico, dividirei em dois momentos: (1) criação do personagem; (2) jogar e interpretar.
A criação do personagem em um RPG é o pilar que sustenta a aventura do jogador. Ao criá-lo, o cliente é direcionado a tentar se representar nesse personagem; dessa forma, escolhe, entre raças e classes, aquelas que mais se adequam à forma como se percebe. Fica nítido que, desde o primeiro momento, o cliente é convidado a olhar para si e tentar se representar — algo complexo, que exige autoconhecimento.
Outro passo importante na criação do personagem é o background, isto é, a história pregressa do personagem antes do início da aventura. Essa história guia e justifica suas ações, assim como ocorre fora da terapia, com a história de vida dos clientes. Abre-se, então, espaço para que o RPG sirva como modelo nas terapias individuais, facilitando a psicoeducação em Análise Funcional, partindo das vivências do personagem e generalizando para o próprio cliente (FARIAS, 2017).
O segundo momento é o jogar e interpretar. O RPG é um jogo de imaginação e interpretação de personagens; dessa forma, o indivíduo deve se inserir na narrativa e atuar colaborativamente em busca de objetivos. Nesse momento, insere-se o suporte para o treino de habilidades sociais, tais como: comunicação, civilidade, fazer e manter amizades, empatia, assertividade, manejo de conflitos, coordenação de grupos e fala em público (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001, p. 28–30).
Pensando no público com TEA e associando ao treino de habilidades sociais, percebe-se que o RPG se torna extremamente vantajoso. A exposição a diferentes tarefas, a interpretação do personagem, o enfrentamento de desafios do jogo e o manejo das relações com os companheiros de sessão evidenciam a quantidade de habilidades trabalhadas durante uma sessão de terapia gamificada.
Além das habilidades sociais, pode-se abordar também a competência social, pois, durante o RPG, não é importante apenas executar um comportamento, mas a forma como ele é executado. Assim, tanto o desempenho quanto o resultado da habilidade treinada são relevantes. Os personagens no jogo são recompensados pelo bom desempenho e, fora dele, os participantes são reforçados pelo sucesso alcançado (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001, p. 37–66).
Este é apenas um pequeno exemplo da riqueza de detalhes que envolve uma partida de RPG com objetivos de desenvolvimento de habilidades sociais. Com este texto, proponho que é possível, de maneira leve e divertida, desenvolver tais habilidades — para o público com TEA, mas também para qualquer pessoa que necessite. A gamificação não se limita ao que foi apresentado aqui; trata-se de um campo em amplo desenvolvimento dentro da Análise do Comportamento.
Referências (ABNT)
DEL PRETTE, Zilda Aparecida Pereira; DEL PRETTE, Almir. Manual de habilidades sociais: desenvolvimento e avaliação. Petrópolis: Vozes, 2001.
FARIAS, Ana Karina de. Teoria e formulação de caso em análise comportamental clínica. São Paulo: Sinopsys, 2017.
Paulo Kuhn
Psicólogo na TEAjudo
CRP 06/202075
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