
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) no contexto de pais atípicos
A Terapia de Aceitação e Compromisso
A Terapia de Aceitação e Compromisso, ou ACT, é uma intervenção pautada em promover a flexibilidade psicológica, bem-estar e trazer o indivíduo para o momento presente por meio de técnicas da meditação Mindfulness. Atualmente sabe-se que pais de crianças autistas apresentam níveis significativamente mais altos de estresse e o objetivo da ACT neste contexto não é eliminar esse estresse, afinal a teoria se pauta em uma filosofia em que experiências estressantes fazem parte da
vida humana, com isso, a ACT foca no processo em alterar a relação com o que é angustiante para que a pessoa possa agir em direção ao que faz sentido para ela mesmo.
Evidências científicas da intervenção em ACT com pais de autistas
O ensaio de Maughan e colaboradores, publicado em Autism (2024), no Canadá, testou um workshop breve de ACT em grupo, desenvolvido por pais de autistas em parceria com clínicos. Participaram 54 pais de crianças, adolescentes e adultos autistas, sorteados para fazer o programa logo de início ou entrar em uma lista de espera.
O programa teve três momentos: um encontro de 3 horas, um dia inteiro de atividades vivenciais e de mindfulness no dia seguinte e um reforço de 3 horas um mês depois. Ao final do segundo encontro, cada pai assumiu o compromisso de uma ação alinhada a seus valores. O grupo de ACT teve maior redução de “sintomas depressivos” e “sofrimento familiar”, esses ganhos se mantiveram quatro meses depois entre os pais que completaram o programa.
Os autores do estudo lembram que esses pais lidam com demandas reais, como mudanças de carreira, pouco tempo para a vida pessoal e serviços de difícil acesso, e que tendem a lidar
com o estresse tentando não entrar em contato com ele, seja afastando
pensamentos incômodos, minimizando o problema, escapando de situações difíceis ou se ocupando para não sentir. Um exemplo é evitar conversar sobre o diagnóstico ou deixar de ir a lugares onde o filho pode ter uma crise, isso pode aliviar na hora, mas o problema e a emoção continuam ali, e o custo costuma crescer com o tempo. A título de curiosidade existe um movimento o qual é definido na ACT por esquiva
experiencial.
Conceitos da ACT aplicadas ao contexto do texto
Aceitação baseada em mindfulness: abrir espaço e esclarecer as ideias
O mindfulness é a base prática da aceitação na ACT: observar, no momento presente, o que se pensa e se sente, sem julgar e sem tentar mudar, nessa pausa é como as ideias se separasse do que é real, sendo possível distinguir, por exemplo, o fato (“hoje ele não quis ir à escola”) da interpretação (“nunca vou conseguir ajudá-lo”) e da emoção (medo, cansaço, tristeza). Com isso, o pensamento deixa de ser tratado como a realidade, o que reduz o que chamamos de fusão cognitiva (pensamentos bagunçados com o que é real).
Uma prática simples: parar por um ou dois minutos, perceber a respiração e nomear o que aparece (“isto é medo”, “isto é um pensamento”). No estudo, o mindfulness foi apresentado por uma imaginação guiada no primeiro encontro, e a evitação experiencial melhorou apenas no grupo de ACT. A escala de mindfulness parental, porém, não mudou, e os autores sugerem que mais prática em casa pode ser necessária.
Desfusão cognitiva a saída para o que vimos sobre “Fusão Cognitiva”;
pensamentos como pensamentos e realidade como realidade
Segundo a RFT (outra base filosófica da ACT), um pensamento como “não vou dar conta” ganha o poder do que ele descreve. A desfusão não discute se o pensamento é verdadeiro, ela muda o contexto em que ele funciona, para que possa ser notado sem comandar o comportamento. Um exemplo é trocar “estou falhando como pai” por “estou tendo o pensamento de que estou falhando como pai”. No estudo, a fusão cognitiva diminuiu no grupo de ACT e continuou diminuindo no seguimento.
Ação comprometida: pequenos passos na direção dos valores
A ação comprometida transforma os valores em passos concretos, praticados mesmo com desconforto, como reservar 20 minutos por semana para algo que importa. No estudo canadense, cada pai assumiu uma ação alinhada a seus valores, e logo após o encontro principal 82% do grupo de ACT havia atingido ao menos uma meta.
Na prática, traçar uma meta começa por algo simples, que vai sendo ampliado aos poucos:
- Parta de um valor: por exemplo, cuidar da própria saúde.
- Escolha um passo pequeno e possível: caminhar 15 minutos duas vezes na semana, e não “voltar a me exercitar”.
- Dê a ele forma concreta: dia, horário e um jeito de saber se foi cumprido. No estudo, as metas dos pais foram refinadas para serem específicas, mensuráveis, possíveis, relevantes e com prazo.
- Pratique mesmo com o desconforto: pensamentos como “não tenho tempo” vão aparecer, e a ideia é notá-los sem deixar que decidam por você.
- Amplie quando der certo: aumente um pouco o tempo ou a frequência, ou some um novo passo ligado ao mesmo valor.
Um cuidado ao falar em aceitação
Aceitar, na ACT, é abrir espaço para emoções e pensamentos difíceis, e não se conformar com a falta de apoio ou abrir mão de buscar serviços e direitos para o filho ou a si próprio. Os dois movimentos andam juntos, a aceitação dá fôlego para agir.
Considerações finais
A ACT oferece a pais atípicos uma forma de lidar com o estresse sem esperar que ele desapareça: abrir espaço para o que sentem, observar os pensamentos à distância e dar passos na direção do que valorizam. O ensaio de Maughan et al. mostra que até um programa breve pode reduzir “sintomas depressivos” e o “sofrimento familiar”, e os estudos mais recentes reforçam esse caminho, a ACT é um apoio ao bem-estar dos pais e não substitui o acompanhamento do filho nem o cuidado profissional.
Referências:
- VMaughan, A. L., Lunsky, Y., Lake, J., Mills, J. S., Fung, K., Steel, L., & Weiss, J. A. (2024). Parent, child, and family outcomes following acceptance and commitment therapy for parents of autistic children: a randomized controlled trial. Autism, 28(2), 367–380. doi:10.1177/13623613231172241
- Pergolizzi, F., Moderato, P., et al. (2021). The effect of acceptance and commitment therapy for improving psychological well-being in parents of individuals with autism spectrum disorders: a randomized controlled trial. Brain Sciences, 11(7), 880. doi:10.3390/brainsci11070880
- Acceptance and commitment training for parents of children with autism spectrum disorder: a randomized clinical trial. (2026). JAMA Network Open, 9(1), e2552693. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.52693
- Meta-análise de intervenções baseadas em ACT em pais de crianças e adolescentes com TEA (2026). SAGE. doi:10.1177/07067437261450738
- Hahs, A. D., Dixon, M. R., & Paliliunas, D. (2018). Randomized controlled trial of a brief acceptance and commitment training for parents of individuals diagnosed with autism spectrum disorders. Journal of Contextual Behavioral Science, 12, 154–159. Resumo
- Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. Appleton-Century-Crofts.
- Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (Eds.). (2001). Relational frame theory: a post-Skinnerian account of human language and cognition. Kluwer Academic/Plenum.
- Hayes, S. C., Luoma, J. B., Bond, F. W., Masuda, A., & Lillis, J. (2006). Acceptance and commitment therapy: model, processes and outcomes. Behaviour Research and Therapy, 44(1), 1–25.

Gustavo Gonçalves
Estagiário / Estudante de psicologia
Estagiário na TEAjudo